Nossa história começa num garimpo em Canabarro, no Rio Grande do Sul.

No fim dos anos 1970, nosso avô, Orlando, era garimpeiro: tirava os cristais da terra e vendia brutos. Trabalhava sempre sozinho. Com o tempo comprou uma serra e passou a fornecer pedra serrada para a maior empresa do setor no Rio Grande do Sul naquela época.

Ele não sabia ler e nunca estudou engenharia nem gemologia. Aprendeu com a pedra. Montou sozinho o tambor vibratório para lixar e polir, errando até acertar. Todo o maquinário era caseiro, improvisado por ele. Nunca usou paquímetro. Fazia tudo no olho. Era de uma criatividade que pouca gente entendia: via nos cristais formas que ninguém mais via, e que na época ninguém levava a sério.

Em meados de 1987, começou a fabricar esferas, esculturas e pirâmides. Criou o próprio gabarito para arredondar as esferas. As que guardamos dele não são perfeitamente redondas. É assim que se reconhece o que foi feito à mão.

Depois inventou uma máquina maleável, o chicote, e com ela fez peças gigantes: esferas, um coração de mais de cem quilos, peças maiores do que ele.

A filha dele, Adriana, nossa mãe, herdou as mãos. Aprendeu a fazer peças menores, porque vendia muito para clientes em São Paulo e viajava sozinha, de ônibus, levando as peças. Das pedras fez acessórios e peças de decoração. Mais tarde, já em São Paulo, abriu um pequeno ateliê que vivia no limite do que conseguia produzir, com peças que viajavam por toda a América Latina.

O ateliê não tinha nada de religioso. Um dos seus clientes era uma loja pequena e recém-aberta, chamada A Flor de Kuan Yin. Adriana atendia essa loja com um cuidado que ia muito além do que um fornecedor costuma oferecer, sem cobrar por isso. Um ano depois da abertura, a dona nos procurou. Contou que, em sonho, tinha ouvido da própria Kuan Yin que, se a loja tivesse de passar para alguém, só poderia ser para a nossa família. Nós nunca tínhamos ouvido falar de Kuan Yin. Ficamos ligados a ela desde o primeiro instante. Aprendemos, e hoje passamos adiante.

Adriana trouxe os três filhos para dentro da loja, e cada um aprendeu o seu ofício enquanto ela crescia. Bárbara, a mais velha, é o rosto da casa: é com ela que todo mundo conversa na loja, é ela quem aparece nas lives e é a voz da marca. Brian, o do meio, é o organizado: coordena a fabricação e a distribuição dos produtos. Caetano, o mais novo, é o artista, o artesão e a mente por trás de todas as criações, dos produtos e da marca. A loja existe desde 2012. Só no ano de 2026, foram mais de 22 mil pedidos e mais de 18 mil pessoas atendidas.

Do avô ficou a herança. Não em bens materiais, mas em ímpeto: o olho crítico, as mãos habilidosas e a paciência de errar e acertar.

Boa sorte se cultiva.